Quem faz cirurgia para refluxo costuma sair do consultório com um medo específico: “se eu engordar com o tempo, o refluxo volta e a cirurgia foi em vão?”. A dúvida é legítima, porque o excesso de peso é um fator conhecido de refluxo. Existe uma resposta baseada em dados, e ela vem de um estudo em que o Dr. Victor Dib é o primeiro autor, com pacientes acompanhados por 15 anos.
O que o estudo fez
Publicado no ABCD, Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva, em 2020, o trabalho acompanhou de forma prospectiva 40 pacientes operados de refluxo pela técnica de fundoplicatura a Nissen, feita por videolaparoscopia. Antes e logo depois da cirurgia foram feitas avaliações clínica, endoscópica, radiológica, de motilidade do esôfago e de medição de acidez.
Quinze anos depois, 29 desses pacientes foram reavaliados clinicamente e por endoscopia, e os resultados foram comparados com os do início. A pergunta central era exatamente esta: o peso ganho ao longo desses anos atrapalhou o controle do refluxo?
O que ele encontrou
No período inicial, os sintomas foram bem controlados, as hérnias e a esofagite desapareceram, a válvula entre o esôfago e o estômago melhorou de função e os parâmetros de acidez se normalizaram.
No seguimento de 15 anos, o achado que interessa a quem tem essa dúvida foi este: houve ganho de peso tardio, e ele não influenciou o controle efetivo dos sintomas. A qualidade de vida, medida por um critério padronizado usado nesse tipo de estudo, melhorou tanto na fase precoce quanto na tardia.
Os autores também registram as complicações, como manda um trabalho sério: 12,5% no intraoperatório e 15% no pós-operatório, sem nenhuma morte. A conclusão publicada é que a fundoplicatura foi segura e efetiva tanto no curto quanto no longo prazo.
Como ler esse resultado sem exagerar
Um estudo desses é uma boa notícia, mas ele tem contorno, e vale respeitá-lo.
São 40 pacientes no início e 29 na reavaliação: um grupo pequeno, de um único serviço. O peso médio no pré-operatório correspondia a um IMC de cerca de 25,7, ou seja, o grupo não partia de obesidade. E o estudo avaliou uma técnica específica, a fundoplicatura a Nissen.
Traduzindo para a prática: o achado é consistente e tranquilizador, mas não autoriza a conclusão de que qualquer ganho de peso, em qualquer paciente, é indiferente. Também não é uma garantia individual. É evidência de que o resultado da cirurgia de refluxo tende a se sustentar por muito tempo, inclusive em quem engordou no caminho.
E quando refluxo e obesidade aparecem juntos?
Esse é um cenário diferente e merece uma linha própria. Quando a pessoa tem obesidade e refluxo ao mesmo tempo, a avaliação não se resume à cirurgia antirrefluxo: o tratamento da obesidade entra na conversa, porque ele impacta o refluxo, as doenças associadas e o resultado de longo prazo. A escolha da conduta muda conforme o caso, e é decidida pelo cirurgião na consulta.
Vale lembrar também que refluxo pode aparecer depois de uma cirurgia bariátrica, um assunto tratado em refluxo (azia) depois do sleeve, e que hérnias de hiato grandes têm um comportamento próprio, explicado em hérnia de hiato gigante.
O que fazer com essa informação
Se você já operou o refluxo e ganhou peso, o dado de longo prazo é favorável, mas o retorno dos sintomas sempre merece investigação. Azia que voltou não é algo a se aceitar: pode ter várias causas, e o exame mostra qual é.
Se você ainda está avaliando a cirurgia, esse estudo ajuda a responder uma das dúvidas mais comuns sobre durabilidade. A indicação, porém, continua sendo individual: depende dos seus exames, do seu histórico e da avaliação do cirurgião.
Fontes
Refluxo que persiste ou que voltou depois de anos merece uma avaliação com exame, não só remédio. Agendar pelo WhatsApp
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. A indicação de qualquer tratamento depende de avaliação individual.