A endoscopia que a maioria conhece é a do exame: uma câmera que desce pelo esôfago para ver o estômago por dentro. Mas ela tem uma segunda face, a terapêutica. Pelo mesmo caminho, sem nenhum corte, o médico pode costurar, dilatar e corrigir problemas do aparelho digestivo. Depois da cirurgia bariátrica, isso muda muita coisa: reganho de peso, vômitos persistentes e até complicações raras podem ser tratados sem uma nova operação. Essa é uma linha de pesquisa que o Dr. Victor Dib publica em revistas internacionais há mais de uma década, e é dela que este artigo trata.
O que a endoscopia terapêutica faz
No exame, o endoscópio funciona como um olho. Na endoscopia terapêutica, ele vira ferramenta: por canais internos do aparelho passam pinças, balões, agulhas de sutura e pequenos tubos (as chamadas próteses) que mantêm a passagem aberta. Tudo acontece por dentro, pela boca, sob sedação.
Para quem já operou o estômago, essa via tem um valor especial. Cada nova cirurgia em uma anatomia já modificada é mais delicada. Quando dá para resolver por dentro, a recuperação costuma ser mais simples.
Voltou a ganhar peso depois do sleeve? Existe a costura por dentro
O reganho de peso anos depois do sleeve (a cirurgia que remove parte do estômago e o deixa em formato de tubo) é relativamente comum, e não é falha de ninguém: a obesidade é uma doença crônica e o estômago pode dilatar com o tempo. Uma das respostas estudadas para esse cenário é a gastroplastia endoscópica, uma sutura feita por dentro que reduz de novo o volume do estômago, sem cortes.
O Dr. Victor Dib, pelo Instituto Victor Dib, em Manaus, é coautor do primeiro estudo a testar essa técnica em quem reganhou peso após o sleeve, publicado na revista Endoscopy em 2020. Os pesquisadores revisaram os prontuários de 34 pacientes que já tinham passado pelo procedimento em vários hospitais. Nos pacientes acompanhados:
- os médicos conseguiram realizar o procedimento do começo ao fim em todos os pacientes;
- em 1 ano, 82,4% perderam ao menos 10% do peso corporal total;
- a perda média foi de 18,3% do peso total em 1 ano (numa pessoa de 100 kg, cerca de 18 kg);
- nenhum evento adverso grave foi registrado.
Os próprios autores usam linguagem cautelosa: a técnica “parece ser” segura e eficaz nesse cenário. É um resultado animador, não uma garantia.
Vômitos frequentes depois do bypass com anel? A dilatação com balão
Algumas versões do bypass gástrico usam um anel ao redor do estômago. Em parte dos pacientes, esse anel gera intolerância alimentar: a comida não passa bem e os vômitos viram rotina. Durante muito tempo, o caminho padrão era operar de novo para retirar o anel.
Um estudo do qual o Dr. Dib é coautor, publicado na Obesity Surgery em 2013, acompanhou ao longo do tempo 63 pacientes que tinham mais de 4 episódios de vômito por semana após o bypass com anel, mesmo sem nenhum estreitamento visível no exame (ou seja, o problema era o anel em si, não uma cicatriz). Todos foram tratados com dilatação endoscópica: um balão que alarga a região do anel por dentro, em sessões sem internação (o paciente volta pra casa no mesmo dia). Houve melhora completa dos sintomas em 93,6% dos pacientes, e a nova cirurgia foi evitada em 96,8% deles. As complicações somaram 9,5% dos casos, todas resolvidas com remédios e acompanhamento, sem precisar de operação.
E quando acontece uma complicação rara?
Complicações graves depois da bariátrica são raras, mas existem, e é justamente aí que o domínio da endoscopia faz diferença. Um exemplo é a fístula gastrobrônquica, uma espécie de túnel que não deveria existir entre o estômago e o canal que leva o ar ao pulmão, e que pode surgir meses após a cirurgia. Tratá-la por cirurgia aberta é um procedimento de grande porte.
Em um estudo feito em vários hospitais, publicado na Obesity Surgery em 2011, do qual o Dr. Dib é coautor, 15 pacientes com essa fístula foram tratados por endoscopia, com técnicas como dilatação com balão e próteses. A fístula fechou em 93,3% dos casos, e o problema não voltou no acompanhamento, que durou em média cerca de 27 meses.
A leitura certa desse dado não é medo, é preparo: quando o cirurgião que opera também domina a endoscopia, ele tem mais ferramentas para resolver cada cenário pelo caminho menos invasivo.
O que esses estudos mostram, e o que ainda não mostram
Vale a honestidade científica. Os três trabalhos são estudos observacionais, com grupos pequenos (34, 63 e 15 pacientes) e sem comparação direta com outras condutas. O acompanhamento também tem limites: 1 ano no estudo da gastroplastia, por exemplo. Resultado de estudo descreve o que aconteceu com aqueles pacientes, não é promessa para o seu caso.
O que eles mostram, na prática, é consistente: em situações que antes só tinham resposta cirúrgica, a endoscopia terapêutica se firmou como alternativa menos invasiva, com bons resultados nos grupos estudados.
A via certa é escolhida caso a caso
Nem todo reganho pede sutura endoscópica, nem todo sintoma pede procedimento. Às vezes o tratamento é clínico; às vezes, endoscópico; às vezes, uma nova cirurgia é mesmo a melhor escolha. Quem define é o cirurgião, na consulta, depois de avaliar exames, histórico e anatomia. No Instituto Victor Dib, a endoscopia digestiva é usada tanto para diagnosticar quanto para tratar, e essa avaliação individual é sempre o ponto de partida.
Fontes
- Endoscopic sleeve gastroplasty in the management of weight regain after sleeve gastrectomy (Endoscopy, 2020)
- Food intolerance after banded gastric bypass without stenosis: aggressive endoscopic dilation avoids reoperation (Obesity Surgery, 2013)
- Gastrobronchial fistula after sleeve gastrectomy and gastric bypass: endoscopic management and prevention (Obesity Surgery, 2011)
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Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. A indicação de qualquer tratamento depende de avaliação individual.